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A influência da lua na agricultura

A influência da lua na agricultura

Quando o homem se tornou sedentário, terá decerto surgido a necessidade de saber quando semear e quando é que se colheriam os frutos desse trabalho. Observando o sol e a lua e a sua influência no desenvolvimento de plantas e animais, estabeleceram-se relações, até ao aparecimento do primeiro calendário.

 Os Romanos estabeleceram como primeiro mês do calendário, março (Martius), em honra do Deus da guerra, mês ideal para começar uma guerra. Abril, era o mês da deusa da beleza e maio, o mês do Deus dos deuses. Setembro era o 7º mês, outubro o 8º, novembro o 9º e dezembro (Decembris), o 10º. O problema é que faltavam meses. Para solucionar o problema, o imperador Júlio César, criou o mês de julho, que ficava bem com o seu nome. César Augusto não se fez rogado, e criou o mês de agosto.
      Nas "Georgicas de Vergilio" (Mayer, 1948), um agrónomo romano, já existem referências a práticas agrícolas reguladas pela posição dos astros.
 No antigo Egipto, entre o deserto e as cheias do rio Nilo, os cálculos de sementeira tinham que bater certo, caso contrário surgia a fome, com os seus efeitos devastadores. As cheias do rio pareciam estar relacionadas com as fases da lua. Foi nas margens do rio Nilo que os antigos egípcios construíram uma civilização fantástica e desenvolveram a agricultura. Para isso, mediam as cheias e as vazantes do rio, programando o cultivo da terra para evitar perdas na produção. Visando facilitar este trabalho, relacionaram as cheias com as fases da lua. Dessa relação, surgiu o primeiro calendário criado pelo homem - o calendário lunar - que dividia o ano em 12 meses de 29 ou 30 dias. Este calendário era impreciso, pois atrasava seis horas a cada ano e, com o passar do tempo, a entrada das estações não correspondia à época prevista.
      Quando da conquista do Egipto pelos Romanos, o imperador Júlio César, preocupado com o problema da imprevisibilidade das colheitas, chamou a Roma o astrónomo Sorígenes (ano 46 a.C.), acompanhado de uma equipe de peritos, com a missão de reformar o calendário romano (de 304 dias), com base no calendário egípcio. Nasce o calendário juliano, estabelecendo o ano civil de 365 dias e um ano bissexto de 366 dias, a cada 4 anos. Mesmo assim, o problema da imprecisão continuava. 
      Em 525, o historiador grego Dionísio propôs, tendo por base o calendário juliano, o calendário cristão, tomando o ano do nascimento de Cristo como o ano 1 do século I. Os acontecimentos anteriores a esta data passaram a ser contados de trás para frente e acrescentados da sigla a.C. (antes de Cristo).
      Em 1582, o Papa Gregório XIII determinou a eliminação de 3 anos bissextos a cada 400 anos no calendário juliano, pois havia uma diferença de 10 dias. Este ficou conhecido como calendário gregoriano. Com o avanço da ciência, no início do século XX, verificou-se que o ano médio tinha 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 45 segundos, e que Cristo havia nascido no ano 4 a.C. Assim acabou o calendário lunar.
 No passado e no presente, muitos são os agricultores portugueses que são assíduos leitores do famoso "Almanaque Borda d'Água", nos Açores do "Almanaque do Camponez", em que se recomenda como agir em função das diferentes fases da lua. Assim, devem-se plantar ou semear entre o quarto minguante e a lua nova, todas as plantas cujo órgão comestível se desenvolva abaixo do solo (raízes, tubérculos, rizomas e bolbos); entre o quarto crescente e a lua cheia, plantar ou semear tudo o que se desenvolva acima do solo (hortaliças e frutos); as fases de quarto minguante a quarto crescente, correspondem a um período de estagnação do desenvolvimento das plantas; durante a fase de quarto crescente, é que deve ser feita a enxertia das espécies fruteiras que produzem flor temporã (pessegueiros, ameixeiras e amendoeiras); em geral, as árvores devem ser podadas no quarto minguante. Associado a este saber, existe ainda uma estreita relação entre as fases da lua e as condições agrometeorológicas.
 Qual o valor científico deste saber?! Simão (1953) estudou a influência das fases da lua sobre a produtividade de hortícolas, utilizando apenas o dia de mudança de fase, e concluiu não se verificar qualquer influência; quando existiu alguma alteração, foi atribuída à variação de temperatura e fotoperíodo. Azzi (1959) apresentou estudos sobre o assunto, tendo afirmado que parece delinear-se uma certa analogia entre os fenómenos de fotoperiodismo1 e os efeitos da lua. Das investigações realizadas na época, pode deduzir-se a existência de um estádio ou fase de particular sensibilidade do organismo vegetal, à acção de raios lunares, estádio que coincidiria com as primeiras fases do desenvolvimento da planta. Spiess (1994), estudou a influência da lua em várias plantas (centeio, cenoura, feijão e batata) durante seis anos e observou variações em rendimento. Cenouras semeadas antes da lua cheia, tiveram maior produtividade. A batata plantada antes da lua cheia, teve menores produções, do que quando plantada antes do perigeu2 lunar. No centeio, o quarto crescente influenciou a germinação das plantas.
      A agricultura biodinâmica, desenvolvida por Rudolf Steiner (1988), revaloriza o conhecimento popular e amplia-o, incorporando os outros ritmos da lua e movimento dos planetas. 
 Em 2001, um artigo publicado na prestigiada revista National Geographic Magazine (http://news.nationalgeographic.com/news/2003
/07/0710_030710_moongarden_2.html), aborda o tema e diz que uma das possíveis explicações para o efeito da lua no crescimento das plantas, é que, durante o ciclo lunar e em particular durante as mudanças de fase, a quantidade de luz reflectida para a terra, varia. Para além disso, a força gravitacional que a lua exerce sobre a terra, também varia durante o ciclo. O efeito mais notável, é o das marés.
 Ainda de acordo com o mesmo artigo, também se acredita que a lua afecta o movimento da água no solo e a solubilidade ou disponibilidade de nutrientes para o sistema radicular das plantas. Este efeito, combinado com o acréscimo de luz reflectido a partir do sol para a terra, afecta o crescimento das plantas. À medida que a lua passa de lua nova para quarto crescente, verifica-se um aumento de luz e o desenvolvimento das plantas é balanceado, formando-se tanto folhas, como raízes.
 Na passagem de quarto crescente para lua cheia, o aumento de luz é ainda maior, o que favorece um rápido crescimento vegetativo, em detrimento do desenvolvimento radicular. Verifica-se um enorme movimento de fluidos através dos feixes vasculares para as folhas, com fornecimento de nutrientes, estimulando portanto, um crescimento rápido.
 Na terceira fase, lua cheia para quarto minguante, a quantidade de luz decresce. Uma vez que há menos luz e a quantidade de fluidos e nutrientes decresce, a planta deixa de centrar o seu esforço no crescimento de folhas, mas sim no crescimento do seu sistema radicular, de modo a facilitar a absorção de fluidos e nutrientes. Nesta fase, verifica-se um crescimento rápido dos sistemas radiculares. Também encoraja a prática da transplantação, uma vez que durante este período, as raízes estão mais desenvolvidas, o que reduz o impacto negativo da transplantação.
 Durante a fase de quarto minguante para lua nova, a quantidade de luz continua a diminuir, até desaparecer. Neste período, o crescimento é mínimo.
 Esta versão simplista, mas bastante razoável, não evita que das interacções complexas que se verificam ao nível do crescimento de uma planta (genéticas, pedológicas3, fisiológicas e climáticas), se possa, de algum modo, negligenciar o efeito das fases da lua, sobretudo quanto está em causa uma agricultura praticada em grande escala, inclemente quanto à duração dos ciclos culturais e seu efeito em datas de colheita, prazos de entrega, etc.
 Contudo a lua nunca deixou de ser alvo das atenções dos homens, quer por bons ou maus motivos. Demonizada ou adorada, a lua ultrapassa as fronteiras da agricultura. O célebre Titanic ter-se-á afundado, entre outras razões, devido à fase da lua, o cabelo cortado na fase da lua errada, crescerá mais rapidamente, etc. É contudo na música, que o efeito da lua é mais delicioso. Famosas foram as canções "Moon River", letra de Johnny Mercer, música de Henry Mancini, interpretada por Andy Williaws, vencedora da Academy Awards em 1961, ou "Garota Solitária", de Ângela Maria, que afirmava ter o destino da lua, que a todos encanta e não é de ninguém.
      Para finalizar e a propósito da veracidade ou falsidade do saber popular, apetece citar Miguel de Cervantes: "Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay".

Referências bibliográficas
Mayer, R. (1948). As Georgicas de Vergilio. Livraria Sá da Costa. 407 p.
Simão, S. (1953). Contribuições ao estudo da suposta acção lunar sobre plantas hortícolas. Tese de doutoramento. ESALQ, USP, Piracicaba.
Spiess, H. (1990). Chronobiological investigations of crops grown under biodynamic management. Experiments with seeding dates to acertain the effects of lunar rythms on the growth of winter rye (Secale cereal, cv. Nomaro). Biological Agriculture and Horticulture, 7, 165-178.
Steiner, R. (1988). Curso sobre agricultura biodinâmica. Ed. Rudolf Steiner, Madrid. 282 p.
1 O fotoperiodismo descreve os efeitos e adaptações de plantas ao fotoperíodo, que representa o comprimento de um dia e consiste na duração do período de luz de um determinado lugar, dependendo da latitude e da estação do ano.
2 Perigeu - ponto da órbita de um astro ou satélite artificial em que se encontra mais próximo da Terra. O contrário de apogeu.

3 Pedologia é o nome dado à ciência que estuda os solos no seu ambiente natural


2012-04-30 por Alfredo Emílio Silveira de Borba em Diário Insular

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